sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ventos.

Eu não sei manter amizades. Não sei mesmo. Não tenho amizades de infância, nem de "ginásio", nem nada disso. Eu queria, de verdade, mas não sei o que fazer. Das amizades antigas que tenho, eu não sei o motivo delas terem ficado por tanto tempo. Penso que o motivo é o contato da mesma forma sempre e a ausência daquela infeliz necessidade de sair para nutrir a amizade, e não somente manter contato de alguma forma.
É, já reparou como seus amigos de sempre precisam sair, se encontrar de vez em quando para manterem um certo contato? Não basta se ligarem ou se falarem, têm que sair, senão você se exclui ou perde contato. Explico: falo porque aconteceu essa semana de encontrar com uma dessas amigas. Éramos bem amigas, um grupinho, mas eu era diferente. Não gostava das baladas, dos outros amigos, e fui me afastando... afastando sempre. E assim foi das outras vezes... o contato morre. A ideia (sem acento) é ter pelo menos uma pra lembrar antes de morrer. Triste, né? Sem imagem, de tão triste que é.

domingo, 22 de março de 2009

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
{Vinicius de Moraes}

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

"Meu ser é de faca e não de flor"

Não me lembro quando foi a última vez que postei por aqui. Engraçado, ontem mesmo pensei em postar, acho que varria a casa enquanto me veio algo para escrever que, por fim, não escrevi. Tenho essa coisa em mim, em que só escrevo quando não consigo. E eu tenho lido coisas tão fortes, por exemplo, Caio Fernando Abreu, que é um autor que eu não conhecia, mas já me encantei. Fora a literatura densa de "A paixão segundo G.H", muitíssimo forte, e que me faz pensar se eu realmente tenho a "alma formada" que foi o que, previamente, Clarice Lispector sugeriu que os leitores dessa obra tivessem. E acho que não tenho.

E, um dos trechos de Caio Fernando Abreu que me deixou barbarizada diante a audácia (se é que posso assim dizer), foi esse, em que é impossível, alguém com o mínimo de sentimentalismo, não se chocar com a comparação, mas que não deixa de ser uma bela definição de algo que tanto tentamos em vão entender:.

"E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também."


Recomendo a visita ao blog SEM AMOR. SÓ LOUCURA.

domingo, 26 de outubro de 2008

Te amo

Te amo como a planta que, em meio a tormentas, floriu, mas tem
dentro de si, escondida entre perfumes, seu pior espinho,
e, graças ao teu veneno-amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma hipnotizante que subiu da terra.

Te amo sabendo bem como: intenso, forte, tempestativo.
Te amo, por vezes, indiretamente com problemas e orgulhos.
Te amo assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que eu sou o que nem tu és,
tão assustador que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

(Minha versão de Neruda)

- Talvez eu não saiba amar mesmo. Eu tenho essa impressão de que complico demais, sofro demais. Saudades de quando era só amor e eu me contentava com isso.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Adaptação natural.



A vida é, sim, cheia de adaptações. Começamos pelas adaptações mínimas, de casa, rotineiras. Tão natural que nem mesmo se percebe a adaptação, parece que já nascemos sabendo já que não se tem lembranças de nada. Porém, poucas coisas nascemos sabendo. Não pode chamar a mamãe enquanto conversa, filha. Não pode, filha, não pode puxar a TV. Tire a mão daí, menina. Não pode subir, não pode gritar, não pode chorar, não pode falar, não pode, não pode. As adaptações aos "nãos" são mais difíceis, porém são mais comuns. O que pode a gente aprende sozinho, no toque, no ato, na busca, às vezes na inocência e na consequência de não saber. Mas, adapta. A gente sempre se adapta.

Mal de amor também é algo que a gente não se adapta. Pode-se sofrer mil vezes. Amor não deixa calo. Deixa marca mas não deixa nenhum aprendizado. Ninguém deixa de amar porque sofreu numa outra vez. Pelo contrário, há sempre de se pensar que o próximo é o que dará certo, é o que fará esquecer tudo de mal que o coração já sofreu. Aquele coração sem calos, sempre disposto a amar mais intenso e dedicar-se mais. Cresce mas não aprende. Sempre cai na mesma história, nas mesmas mentiras. Temos aquele bichinho dos contos de fadas, sempre achando que será eterno, felizes para sempre. Pego-me pensando quanto perderíamos se fosse diferente. Nada é mais inadaptável que o amor. Ainda bem!